Artigo de Nuno Michaels. A todos os Peixes e Neptunianos...
... a nostalgia de ter abandonado uma casa que não temos a certeza que existe - apenas a memória difusa de lá termos vivido uma vez e sabe deus há quanto tempo...
... a saudade de qualquer coisa que não se sabe o que é, mas será perfeito, completo, eterno, sem princípio nem fim, nem dor, nem solidão, nem sofrimento, nem restrição, limitação, nem a pressão do espaço e do tempo- a sua expressão.
As saudades de Eternidade...
... a experiência de se estar à mercê de todos os estímulos do exterior e que nos ferem. A sensibilidade de ser uma cera quente que com qualquer toque, ou pressão, por subtil, fica gravada e doi como um ferro em brasa na língua
... impossível falar.
Ver o mundo em caleidoscópio e em cada encontro uma
miríade de Universos que se abrem a partir do mesmo instante e que disparam em
todas as direcções em simultâneo, e que parecem ser tão reais quanto aquilo que
os órgãos dos sentidos físicos permitem captar
e não distinguir aquilo a que chamam realidade daquilo
que não tem nome e é imaginação
- a consciência de que aquilo que é a consciência comum é
um estado de sonho -
E a iluminação relativa à ilusão do despertar: estados de
sonho dentro de estados de sonho e de cada vez que se desperta e se acredita
que desperta, trata-se tão só de um sono mais leve: a denúncia que não
interessa com o próximo despertar, o seguinte sonhar acordado, e melhor ainda,
confundir acordar com o sonho.
A busca, impossível de correr e conter, pelo sentimento
original perdido de união, de fusão, eternidade: a busca que nem sequer se
deseja fazer a si própria, pois desejar é já romper e rasgar o vácuo cristalino
que é o mais próximo do Tudo que se consegue.
O movimento da emoção interior, impossível de parar ou
dirigir, que sempre se esgueira e escorre e sobe e desce e se evapora e
condensa - como se fosse inevitável este movimento em direcção a uma unidade
maior que a há-de engolfar como se fosse um rio impossível de conter que flui
sem caudal e sem limites, sem margens na busca, sem sombra de margens, no
encontro do oceano para se perder e se fundir e se deixar absorver e
diluir e se esquecer e se lembrar.
A necessidade tão absoluta de Amor e União entre as
Almas,
A dor tremenda de não encontrar na vida isso que os
homens vivem dia-a-dia, e fingir fingir fingir que a única maneira possível de
suportar a existência é por detrás daqueles véus que distorcem a realidade de
modo a senti-la tolerável, só por momentos: para fingir que é possível viver
vida seca, árida, angular e esquecida.
Esquecida de nada, esquecida de tudo, esquecida.
O encantamento de ver uma partícula de pó numa sala
atravessada por raios de Sol, e encontrar nessa partícula de Sol e de pó
reflexos de todo o Universo.
Olhar a Vida com olhar desfocado que parece estar a ver,
mas não está a ver nada;
está simplesmente à deriva num espaço sem tempo nem
coordenadas, simplesmente à deriva, deixando-se guiar e conduzir sem nenhum
esforço, simplesmente sabendo...
... que o que quer que seja está certo, que não há
princípio nem fim, que não há como levar as coisas a sério aqui neste mundo que
não é desse mundo, ou será esse que não é deste o mundo.
... que tudo o que não é esse espaço sem princípio nem
fim, tudo o que não o é é temporário, ilusório, uma criação, artifício... não é
a verdade: a verdade é o que não principia nem acaba, o impossível de
transmitir ou designar ou dar palavras, o que está contido na emoção sublime da
reacção à música, o que está contido no, no….
... o que está contido na dor que nos dilacera a alma
quando vê o animal atropelado à beira da estrada.
A emoção de ver a folha a cair da árvore e lentamente
deixar-se pousar.
A consciência de que tudo isso existe (ou não?) num
momento que é tudo e no entanto perante a eternidade não é nada.
Pintar o mundo quando é negro de cor-de-rosa enquanto não
aceitamos chorar a dor profunda de estarmos tão longe de Casa.
A necessidade imperiosa de evitar e fugir de tudo, de
tudo, de tudo!
De tudo o que fere a sensibilidade,
de tudo o que é desarmónico,
de tudo o que é separativo,
de tudo o que é efémero.
A necessidade de curar todas as feridas e de transcender
toda a separação e de invadir o mundo inteiro com o abraço e o olhar e o
Coração.
A vontade – ou a asfixia - de cobrir todo o mundo de
Amor, de o salvar, de o curar da estupidez que nasce da amnésia.
A voz muito ténue que se houve no silêncio é no silêncio
que se ouve
A voz que nos faz acreditar que realmente existe a nossa
Casa e que alguém lá tenta estabelecer comunicação – tá lá, tás aí mas
voltarás...
A dualidade interna de viver neste mundo com esta ligação
impossível, com este outro mundo possível.
E a recusa irresistível a fazer de conta que se vive,
neste mundo, que se pertence a este mundo.
A impossibilidade de se separar seja do que for, e de
largar este mundo, e de voltar para Casa.
O estar entre mundos, dilacerado, dividido entre mundos.
Sentindo que é impossível voltar para Casa, e que não é
possível viver aqui.
A descoberta de que se tem um cesto, um cestinho do
tamanho do infinitamente grande, sem fim e sem fundo, onde podemos recolher - à
medida que vamos catando as dores de uns, e de outros – tudo o que cabe no
cesto, e lá cabe tudo, para pôr no cesto e mandar para a reciclagem, para
reciclagem, para cima...
... e ainda assim, ao final do dia - que pode ser a noite
- precisar de regressar ao silêncio e chorar, chorar a nossa própria condição,
A condição dos seres em volta.
A condição à volta dos seres.
E aceitar que o que há a fazer é ir colhendo as dores e
chorando as dores,
enviando-as a Casa.
Sentindo que não há mais nada, e nada que possa ser
feito,
E sabendo que nisso se esgota e se cumpre a passagem por
aqui.
Aceitar viver neste mundo, não sendo deste mundo, e
aceitar a dimensão de solidão ou solitude que silencia o mundo de fora onde a
oração quase ajuda a esquecer.
E com todos os mecanismos de anestesia da sensibilidade
para não sofrer à flor da pele,
para não ser destruído.
Por sobreviver num mundo em que tudo está certo como
está, mas que está tão longe ainda do que a Alma quer.
E este sentimento crónico de viver com saudades de casa e
ainda assim entregar, aceitar, confiar.
E apesar da dor, da desilusão,
e apesar da desadaptação, e apesar do vazio a entrega.
Sem restrições à condição,
como se uma gota de água se fosse, e se safasse, na ponta
da folha da árvore, como se uma gota se fosse,
E ficarmos aí pendurados, resistindo a deixar-nos cair.
Resistindo a deixar de ser gota e a deixar-se cair
Na poça que dá ao rio, depois ao mar, ao oceano, a todos
os mares do mundo daquém e d’além
E cada momento como o único momento,
O momento da dúvida
O movimento de nos deixarmos ir
De inspirar profundamente
Expirar
E nessa entrega à gravidade, ou à comédia do mundo
expirar,
E nessa entrega à gravidade podermos ser devolvidos
Ao lugar donde viemos.
