sábado, 9 de fevereiro de 2013

NEPTUNO EM PEIXES



Artigo de Nuno Michaels. A todos os Peixes e Neptunianos...



... a nostalgia de ter abandonado uma casa que não temos a certeza que existe - apenas a memória difusa de lá termos vivido uma vez e sabe deus há quanto tempo...




... a saudade de qualquer coisa que não se sabe o que é, mas será perfeito, completo, eterno, sem princípio nem fim, nem dor, nem solidão, nem sofrimento, nem restrição, limitação, nem a pressão do espaço e do tempo- a sua expressão.

As saudades de Eternidade...


... a experiência de se estar à mercê de todos os estímulos do exterior e que nos ferem. A sensibilidade de ser uma cera quente que com qualquer toque, ou pressão, por subtil, fica gravada e doi como um ferro em brasa na língua

... impossível falar.

Ver o mundo em caleidoscópio e em cada encontro uma miríade de Universos que se abrem a partir do mesmo instante e que disparam em todas as direcções em simultâneo, e que parecem ser tão reais quanto aquilo que os órgãos dos sentidos físicos permitem captar

e não distinguir aquilo a que chamam realidade daquilo que não tem nome e é imaginação

- a consciência de que aquilo que é a consciência comum é um estado de sonho -

E a iluminação relativa à ilusão do despertar: estados de sonho dentro de estados de sonho e de cada vez que se desperta e se acredita que desperta, trata-se tão só de um sono mais leve: a denúncia que não interessa com o próximo despertar, o seguinte sonhar acordado, e melhor ainda, confundir acordar com o sonho.

A busca, impossível de correr e conter, pelo sentimento original perdido de união, de fusão, eternidade: a busca que nem sequer se deseja fazer a si própria, pois desejar é já romper e rasgar o vácuo cristalino que é o mais próximo do Tudo que se consegue.

O movimento da emoção interior, impossível de parar ou dirigir, que sempre se esgueira e escorre e sobe e desce e se evapora e condensa - como se fosse inevitável este movimento em direcção a uma unidade maior que a há-de engolfar como se fosse um rio impossível de conter que flui sem caudal e sem limites, sem margens na busca, sem sombra de margens, no encontro  do oceano para se perder e se fundir e se deixar absorver e diluir e se esquecer e se lembrar.

A necessidade tão absoluta de Amor e União entre as Almas,

A dor tremenda de não encontrar na vida isso que os homens vivem dia-a-dia, e fingir fingir fingir que a única maneira possível de suportar a existência é por detrás daqueles véus que distorcem a realidade de modo a senti-la tolerável, só por momentos: para fingir que é possível viver vida seca, árida, angular e esquecida.

Esquecida de nada, esquecida de tudo, esquecida.

O encantamento de ver uma partícula de pó numa sala atravessada por raios de Sol, e encontrar nessa partícula de Sol e de pó reflexos de todo o Universo.

Olhar a Vida com olhar desfocado que parece estar a ver, mas não está a ver nada;

está simplesmente à deriva num espaço sem tempo nem coordenadas, simplesmente à deriva, deixando-se guiar e conduzir sem nenhum esforço, simplesmente sabendo...

... que o que quer que seja está certo, que não há princípio nem fim, que não há como levar as coisas a sério aqui neste mundo que não é desse mundo, ou será esse que não é deste o mundo.

... que tudo o que não é esse espaço sem princípio nem fim, tudo o que não o é é temporário, ilusório, uma criação, artifício... não é a verdade: a verdade é o que não principia nem acaba, o impossível de transmitir ou designar ou dar palavras, o que está contido na emoção sublime da reacção à música, o que está contido no, no….

... o que está contido na dor que nos dilacera a alma quando vê o animal atropelado à beira da estrada.

A emoção de ver a folha a cair da árvore e lentamente deixar-se pousar.

A consciência de que tudo isso existe (ou não?) num momento que é tudo e no entanto perante a eternidade não é nada.

Pintar o mundo quando é negro de cor-de-rosa enquanto não aceitamos chorar a dor profunda de estarmos tão longe de Casa.

A necessidade imperiosa de evitar e fugir de tudo, de tudo, de tudo!

De tudo o que fere a sensibilidade,

de tudo o que é desarmónico,

de tudo o que é separativo,

de tudo o que é efémero.

A necessidade de curar todas as feridas e de transcender toda a separação e de invadir o mundo inteiro com o abraço e o olhar e o Coração.

A vontade – ou a asfixia - de cobrir todo o mundo de Amor, de o salvar, de o curar da estupidez que nasce da amnésia.

A voz muito ténue que se houve no silêncio é no silêncio que se ouve

A voz que nos faz acreditar que realmente existe a nossa Casa e que alguém lá tenta estabelecer comunicação – tá lá, tás aí mas voltarás...

A dualidade interna de viver neste mundo com esta ligação impossível, com este outro mundo possível.

E a recusa irresistível a fazer de conta que se vive, neste mundo, que se pertence a este mundo.

A impossibilidade de se separar seja do que for, e de largar este mundo, e de voltar para Casa.

O estar entre mundos, dilacerado, dividido entre mundos.

Sentindo que é impossível voltar para Casa, e que não é possível viver aqui.

A descoberta de que se tem um cesto, um cestinho do tamanho do infinitamente grande, sem fim e sem fundo, onde podemos recolher - à medida que vamos catando as dores de uns, e de outros – tudo o que cabe no cesto, e lá cabe tudo, para pôr no cesto e mandar para a reciclagem, para reciclagem, para cima...

... e ainda assim, ao final do dia - que pode ser a noite - precisar de regressar ao silêncio e chorar, chorar a nossa própria condição,

A condição dos seres em volta.

A condição à volta dos seres.

E aceitar que o que há a fazer é ir colhendo as dores e chorando as dores,

enviando-as a Casa.

Sentindo que não há mais nada, e nada que possa ser feito,

E sabendo que nisso se esgota e se cumpre a passagem por aqui.

Aceitar viver neste mundo, não sendo deste mundo, e aceitar a dimensão de solidão ou solitude que silencia o mundo de fora onde a oração quase ajuda a esquecer.

E com todos os mecanismos de anestesia da sensibilidade para não sofrer à flor da pele,

para não ser destruído.

Por sobreviver num mundo em que tudo está certo como está, mas que está tão longe ainda do que a Alma quer.

E este sentimento crónico de viver com saudades de casa e ainda assim entregar, aceitar, confiar.

E apesar da dor, da desilusão,

e apesar da desadaptação, e apesar do vazio a entrega.

Sem restrições à condição,

como se uma gota de água se fosse, e se safasse, na ponta da folha da árvore, como se uma gota se fosse,

E ficarmos aí pendurados, resistindo a deixar-nos cair.

Resistindo a deixar de ser gota e a deixar-se cair

Na poça que dá ao rio, depois ao mar, ao oceano, a todos os mares do mundo daquém e d’além

E cada momento como o único momento,

O momento da dúvida

O movimento de nos deixarmos ir

De inspirar profundamente

Expirar

E nessa entrega à gravidade, ou à comédia do mundo expirar,

E nessa entrega à gravidade podermos ser devolvidos

Ao lugar donde viemos.







Sem comentários: